A dor de perder um filho ainda no ventre já seria devastadora por si só. Mas, em João Pessoa, a tragédia vivida por uma jovem de 21 anos ganhou contornos ainda mais revoltantes: segundo a família, ela precisou esperar quatro dias para ter o bebê morto retirado da barriga. O caso, ocorrido no Hospital da Mulher, em Cruz das Armas, resultou em um boletim de ocorrência por suposta negligência médica.
A família relata que, na quinta-feira (4), após sentir fortes contrações, a gestante procurou atendimento na maternidade da rede estadual. Exames realizados na unidade identificaram excesso de líquido e batimentos cardíacos anormais no bebê. Mesmo com o quadro preocupante e com um sangramento após o exame de toque, a médica responsável teria afirmado que era “normal” e orientado a paciente a retornar apenas caso percebesse ausência de movimentos do feto.
Na manhã seguinte, sem sentir qualquer sinal do bebê, a jovem voltou ao hospital. Desta vez, os profissionais confirmaram o pior: morte fetal. A partir daí, começou uma espera angustiante. Segundo parentes, a equipe insistia na tentativa de um parto normal, mesmo diante das condições emocionais e físicas da gestante e apesar da gravidade da situação.
“Botaram ela em uma salinha, deram mil e uma opções. Toda vez que a gente falava em cesárea, diziam que era melhor normal, que ela ia sofrer menos, e que, se fosse para cesárea, ainda tinha que esperar porque as salas estavam ocupadas”, relatou Jéssica, irmã da jovem.
A advogada da família, Juliana Ribeiro, afirma que a paciente foi submetida a diversas induções de parto, todas sem sucesso, enquanto o hospital alegava falta de condições para realizar o procedimento cirúrgico. “Eles aguardaram 96 horas. Depois de induzirem de todas as formas e verem que ela não ia conseguir um parto normal, só agora colocaram ela em cirurgia, depois dela já desenvolver uma infecção urinária”, denunciou.
O episódio escancara, mais uma vez, o caos silencioso que persiste nas unidades de saúde do Governo do Estado. Falta de estrutura, demora em procedimentos básicos, orientações contraditórias e pacientes deixados à própria sorte revelam um sistema que insiste em falhar justamente com quem mais precisa.
Enquanto a jovem segue em recuperação e a família busca justiça, fica o questionamento: até quando mulheres terão que enfrentar sofrimento e descaso em um serviço público que deveria acolher, agir com urgência e proteger vidas?

