Publicado em outubro de 2025, o movimento que uniu estudantes e professores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) entrou para a história como um dos episódios mais emblemáticos da luta por uma universidade pública, gratuita e de qualidade no estado. A paralisação, deflagrada no fim de setembro daquele ano, expôs um cenário de descaso institucional, descumprimento da Lei de Autonomia e um projeto contínuo de sucateamento do ensino superior público.
Desde o dia 22 de setembro de 2025, professoras e professores da UEPB estavam em greve por tempo indeterminado, decisão tomada em assembleia geral descentralizada da ADUEPB, atingindo todos os campi da instituição. A paralisação foi motivada pelo descumprimento sistemático da Lei da Autonomia (Lei nº 7.643/2004), pelo congelamento de progressões funcionais, ausência de concursos públicos e pelo estrangulamento deliberado do orçamento da universidade.
À época, a UEPB já acumulava uma dívida superior a R$ 75 milhões referente a retroativos de progressões não pagas. Dados oficiais de 2024 apontavam ainda um quadro alarmante, com 393 docentes temporários para apenas 790 efetivos, evidenciando a precarização das relações de trabalho dentro da universidade e o impacto direto na qualidade do ensino, da pesquisa e da extensão.
O governo do Estado, comandado pelo governador João Azevêdo (PSB) e pelo vice Lucas Ribeiro (PP), era apontado como responsável direto pela política de cortes e travamentos administrativos. Na Assembleia Legislativa da Paraíba, presidida por Adriano Galdino (Republicanos), tanto situação quanto oposição aprovavam, sem resistência, orçamentos inferiores ao previsto em lei, relegando a UEPB a segundo plano e utilizando a crise apenas como discurso pontual.
Criada em 2004, a Lei da Autonomia determina que 3% da Receita Ordinária do Estado sejam destinados à UEPB, com rubrica própria no orçamento anual. Em 2025, a Lei Orçamentária Anual previa uma receita estadual de R$ 21,36 bilhões, o que garantiria à universidade um repasse de R$ 640,9 milhões. Na prática, porém, o valor efetivamente transferido foi de apenas R$ 455 milhões, gerando um déficit de R$ 185,8 milhões em um único ano.
O mesmo padrão se repetia nos exercícios anteriores. Em 2023, mais de R$ 152 milhões deixaram de ser repassados à instituição, enquanto em 2024 o déficit ultrapassou R$ 171 milhões. Ano após ano, o descrespeito à Lei da Autonomia mantinha a universidade refém de decisões políticas, comprometendo a manutenção da estrutura, dos laboratórios e da assistência estudantil.
Diante do agravamento da crise, o movimento estudantil assumiu protagonismo. Ainda antes da deflagração da greve docente, organizações como o Movimento Correnteza já mobilizavam os campi com panfletagens, passagens em sala, audiências públicas e diálogo com a ADUEPB, numa tentativa de evitar a paralisação total e abrir canais de negociação com o governo estadual.
Sem qualquer resposta efetiva, estudantes compreenderam a necessidade de caminhar ao lado dos trabalhadores da educação. Em 29 de setembro de 2025, uma Assembleia Unificada Multicampi aprovou o indicativo de greve estudantil e a formação de uma comissão para atuar em conjunto com o comando de greve docente, unificando docentes e discentes em torno de uma mesma pauta.
Entre as principais reivindicações estavam a garantia do funcionamento do Restaurante Universitário e da moradia estudantil durante a greve, a manutenção das bolsas acadêmicas e de permanência, a construção de um Plano Estadual de Permanência Estudantil com orçamento próprio e o cumprimento integral da Lei da Autonomia.
A crise da UEPB fazia parte de um cenário nacional mais amplo. Universidades estaduais em todo o país enfrentavam cortes orçamentários, atrasos de repasses e ataques à autonomia. Em Minas Gerais, a UEMG era ameaçada por projetos de transferência e privatização. No Rio de Janeiro, a UERJ convivia com atrasos salariais e cortes de bolsas. Na Bahia, a UNEB enfrentava restrições orçamentárias que afetavam diretamente professores e estudantes.
Esse contexto revelava uma política nacional de sucateamento do ensino superior público, tratando a educação como gasto e não como investimento estratégico. Para a juventude trabalhadora, principal usuária da universidade pública, os cortes significavam a ameaça concreta ao acesso, à permanência e à conclusão do ensino superior.
“A UEPB não pode sobreviver apenas como cabide eleitoral. Nossa luta é para garantir que a universidade continue sendo um espaço do povo, da juventude e da classe trabalhadora. Estudar com dignidade significa ter comida no RU e um teto para dormir, o que ainda não é realidade em todos os campi”, afirmou à época Sheyla Silva, estudante de Sociologia da UEPB.
Meses depois, o movimento de 2025 permanece como um marco de resistência e um alerta permanente. Sem financiamento adequado, respeito à autonomia e compromisso político com a educação pública, a universidade segue ameaçada e, com ela, o futuro de milhares de estudantes paraibanos.

